A Saga de Zera




Ano de 1364 - Em algum lugar no Deserto da Perdição.

 - Zera! O que está fazendo, garoto?! Entre logo na cabana!

 - Tio Maahl, o qu... O que está acontecendo?

 O jovem de 14 anos trazia a cabeça erguida para o céu, os olhos expressavam confusão e curiosidade. Ele não compreendia por quê todos os outros da aldeia estavam assustados, recolhendo seus camelos e fugindo para suas cabanas, como se o céu fosse cair sobre suas cabeças e os tetos de pano pudessem salvá-los. Era o meio da tarde, no meio do deserto aberto, mas uma grande sombra pairava sobre tudo e todos... Como se uma sombra estivesse devorando o Sol.

 - Eu não sei... - Respondeu o velho Maahl. - ...Eu não sei, mas não pode ser nada bom. Com certeza é alguma trama de Tenebra, aquela deusa megera!

 - Tolo!! - Era Haddi, o profeta da aldeia. Ele se aproximava calmamente, apoiado em seu cajado - Não blasfeme em vão, mesmo contra uma deusa rival. A Senhora Morte respeita o acordo com o Vigilante desde tempos remotos... Ela não atacaria nosso sol assim de repente... Não. Isso é a profecia do sul se concretizando. O Ceifador... Seu escolhido nasceu. A queda de um povo se aproxima. Não temeis, povo de Azgher, nosso Deus não está cego. Ele apenas fechou seu olho que tudo vê por um breve momento, para não testemunhar um nascimento tão profano.

 Os aldeões pareceram se acalmar com as palavras do velho profeta. Nenhum deles realmente entendia suas palavras... Talvez nem ele mesmo compreendesse completamente suas divinações. O nascimento de Thwor Ironfist e a queda do povo élfico talvez nunca viesse a significar nada para aquela vila tão ao norte de tudo... Exceto para Zera.
 É claro que, naquele momento, Zera também não sabia o significado de nada daquilo. O garoto apenas seguiu complacentemente o velho Maahl de volta para a tenda... Mas o mesmo tanto que não havia entendido, foi o quanto ficara curioso. Pela primeira vez, o meio-gênio de 14 anos de idade sentira um desejo vir de dentro. O desejo de conhecer as terras além do deserto, e entender os mistérios e as aventuras que moram no sul...

 Assim nasceu neste jovem quareen a fagulha do aventureiro.


Ano de 1368


 - Você tem certeza disso, Zera...? Sabe que tipo de perigos te aguardam lá fora? Você ouviu as profecias do velho Haddi sobre as tempestades rubras que se aproximam de nosso mundo, e sobre a sombra que nasceu a quatro anos atrás, não é mesmo? O mundo hoje já é repleto de monstros e tormentos, e tudo indica que só vai piorar nos próximos anos...

 - Tio Maahl, eu agradeço sua preocupação... E tudo que fez por mim, desde sempre. Mas... Há um desejo dentro de mim, e eu preciso atendê-lo.

 Maahl olhou para o peito de Zera, onde reluzia levemente a marca de Wynna que todos os quareen têm. O garoto passara tempo demais ajudando a todos daquela caravana... Era hora que ele partisse em busca de seus sonhos.

 - Que Azgher, o Vigilante, Aquele-Que-Tudo-Vê, ilumine sempre seu caminho com toda sua luz. - Abençoou tio Maahl. - Siga seu caminho, jovem Zera, e jamais olhe para trás. Este velho vai sentir sua falta.

 Após se despedir e se afastar daquele povo do deserto, Zera retirou do rosto a proteção que, como todos ali, usara por toda a vida. Não tinha nada contra Azgher, mas... Sentia-se mais livre com o vento batendo-lhe diretamente no rosto.
 Com um último olhar de adeus na direção da casa que abandonava, Zera avança para o sul...



Ano de 1389 - Reino de Tapista, casa de Diokkenes, o filósofo.

 - Pelas chamas de Tauron! - Diokkenes bradou com sua voz de touro velho. O minotauro era muito bondoso, mas não tolerava incompetências. - Luna, sua escrava tola, como pôde derramar um vinho tão precioso?! Tem noção de quantos anos essa bebida aguardou para ser servida?! Decerto é mais velha que você, e eu nem sei quantos anos uma elfa da sua aparência pode chegar a ter!

 - A-ah, por favor me perdoe, meu mestre, eu...

 - Sem desculpas! Apenas limpe essa bagunça. Perdoe-nos, viajante, o que você dizia antes desta interrupção?

 A figura encapuzada diante de Diokkenes demorou um pouco para responder. Parecia observar a escrava, perdido em pensamentos.

 - Ah... Sim. - Começou o encapuzado, finalmente. - Eu vim para agradecê-lo, nobre Diokkenes. Sem a sua intervenção eu teria sido jogado para a eternidade nas masmorras labírinticas por um crime que jamais cometi. De fato, eu lhe devo minha vida, e cada fibra do meu ser demanda que eu pague de acordo.

 Dizendo isso, a figura retira o manto com o capuz, revelando um peito com uma grande tatuagem arcana.

 - Oh? Um quareen? Quem diria que de todos que eu poderia decidir ajudar, esbarrei em alguém que paga qualquer ajuda acima de tudo. Pois bem, é apenas óbvio que honrarei ambas as nossas raças e crenças e te aceitarem como escravo. Você parece ser um guerreiro experiente e outros minotauros talvez te recusassem por você ser mais forte que eles e não precisar de proteção... Mas eu? Eu valorizo a força intelectual. E nisso, meu caro viajante, eu sou mais forte que você. Diga-me seu nome, andarilho do horizonte.

- Zera. Meu nome é Zera. Será uma honra servi-lo, mestre Diokkenes.


Ano de 1391

 - Luna... Está mesmo tudo bem? O mestre não ficará furioso?

 - Já te disse, Zera. Mestre Diokkenes é boa pessoa. Ele valoriza o amor e repudia minotauros que usam suas escravas para reprodução e prazer contra a vontade delas... Ele sabe que o respeito mais do que os deuses, mas que nunca serei capaz de amá-lo como amo você. Tenho certeza que ele concederá a benção de Tauron ao bebê em meu ventre... Mas diga-me, Zera... Há algo mais te preocupando, consigo sentir. O que tanto estressa seus pensamentos?

 Zera hesitou e disse:

 - Ouvi boatos de uma tempestade rubra que chegou ao norte. Uma que destrói como nas mais antigas profecias de horror.

 O rosto de Luna se encheu de tristeza:

 - Você quer partir, não é mesmo?

 - Não é isso... - Ele a abraçou, mas sentiu um aperto no peito: Era exatamente isso. Ele queria partir. O desejo dentro dele queimava de novo, o ardor da vontade de aventura. Mas ele tinha um mestre a obedecer. Uma esposa e, em breve, um filho para cuidar.



Ano de 1399

 - Você sabe por quê eu divido opiniões aqui em Tapista? - Diokkenes perguntava sem olhar para Zera, enquanto observavam o sol se por e cair do outro lado das Uivantes.

 - Sei sim. Você pensa diferente. Enxerga além dos outros. Por isso alguns se amedrontam e exibem ódio, e outros te admiram profundamente.

 - E qual o meu principal "pensamento diferente"?

 - Que um escravo pode se tornar forte... Sair da posição de escravo e se tornar algo de mais valor, como um guerreiro.

 - Exato. Você deve se lembrar, mas eu digo a todos os meus escravos, na primeira semana que estão comigo: "Se quiser ir embora, tudo que você precisa fazer é me pedir e vencer um desafio."

 Zera não respondeu. Sabia bem daquilo. Já fazia oito anos que o desejo de caminhar pelos horizontes e explorar os perigos do mundo queimavam em seu peito. Mas não podia abandonar seu mestre Diokkenes, sua amada Luna, e o pequeno Lénienn...

 -  Você não chegou a me pedir. Mas como seu mestre eu pude perceber que quer partir. E como filósofo eu entendo que não pediu pois o seu desafio é diferente. Eu te disse no momento em que nos conhecemos: você é forte demais. Derrotar um monstro ou gladiador não seria desafio para ti. Sua fraqueza está aqui... - Diokkenes tocou a própria cabeça chifruda com um dedo, indicando que falava da mente -  ...Mas eu julgo que nos últimos oito anos você já evoluiu o suficiente... Então hoje me peguei pensando "o que ainda impede aquele tolo?...". E conclui que a única coisa que te faltava, era essa conversa.

 Zera percebeu que lágrimas escorriam por seu rosto. Que grande mestre ele teve. Se existe honra em ser escravo, ele definitivamente a teve com Diokkenes. Percebendo qual era seu desafio, ele deu as costas a seu mestre sem respondê-lo. Sabia que o minotauro o entendia. Sabia que não precisava dizer nada, nem mesmo agradecer. Pegou seus poucos pertences e partiu para sempre.

 Luna jamais perguntou ao mestre o que houve. Ela apenas chorou. Chorou por muito tempo. Muitos dias. Diokkenes respeitou a tristeza da elfa, e todo o trabalho da casa ele pediu gentilmente que o pequeno Lénienn fizesse no lugar dela, ensinando-o e consolando-o naqueles momentos difíceis...

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